06/09/17

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida


a minha face?

(Cecilia Meireles)

Amo-te

Eu sei que te amo...
Duma maneira pura
Insana
Conto os minutos
Para receber os teus beijos
E quando chegas perco-me

Num vazio em que tudo é possível

Chuva


Oiço as lágrimas pluviais...
Caem lá fora. E no vaivém das gotas...
Prendo um olhar infecundo e vazio
Paro e olho o escorrer do vento
As aves exibem-se nos beirais
E entre árvores, banham-se a esmo
Assim, como as lágrimas múltiplas nos dão a remissão...
Gotículas de chuva fina sopram... E molham-me o rosto, um rosto outrora
menina!
Hoje eu vejo que chove lá fora...

Vejo meu jardim de hortênsias gritarem por vida.

Olhares Dircretos


Eram incertezas de olhares discretos,
Onde o esquecimento das palavras e o cheiro das sílabas permaneciam em mim.
E esperei... esperei no local onde a brisa soprava em ti.
Tornando-me tua, num beijo nosso.

Permanecemos na nossa realidade desfocada de preconceito,
Onde nos tornamos únicos dentro da diversidade,
Simples e diferentes, como o sabemos ser.


Já não quero pensar, já não quero dizer...